Festa Quarto e o futuro-presente da música eletrônica goianiense 

Criada há quase quatro anos, a Quarto atrai e acolhe o público clubber goianiense que busca sonoridade eletrônica fora do convencional

Por Everton Antunes

Foto: Liara (@lliara)

Em meio à noite vibrante da Rua 08, no centro de Goiânia, dois ou três cômodos principais – escada acima do bar Zé Latinhas – comportam um aglomerado de pessoas da cena clubber e underground goianiense. O espaço em questão chama-se Furna – e o barulho que ressoa parede afora vem da festa Quarto.

“A Quarto e a Furna meio que viraram uma coisa só, tá ligado?”, explica Tobeats, que, juntamente com o DJ Poisnão, fundou essa festa de ‘música eletrônica marginal, torta e sem direção’. Ao longo de quase quatro anos de existência, o evento acumula 1 edições oficiais – e mais de 35 edições dentro e fora do espaço da Furna.

Em entrevista a Portal Beco, os DJs Tobeats e Poisnão contam detalhes sobre essa iniciativa que acolhe artistas independentes, de dentro e fora do estado, além de entusiastas da música eletrônica, em uma fusão de gêneros, frequências e experimentação sonora. Os fundadores da Quarto também falam sobre as próprias trajetórias, a relação com a música eletrônica e os desafios que esse gênero musical enfrenta para crescer em Goiás. 

DJ Poisnão

Foto: Kaique Junio (@voelzito) 

Natural de Jundiaí, interior de São Paulo, Luciano Grieco (conhecido nas pistas como ‘DJ Poisnão’) é tatuador, mora em Goiânia há quase nove anos e descobriu a música eletrônica já no estado de origem. 

Já em Goiânia, “eu conheci o Tobeats e vi que o nosso som deu muito certo. Daí, eu chamei ele e foi bem fácil: a gente fez a primeira edição da Quarto e a galera abraçou muito, entendeu o rolê”, explica Luciano.

O trabalho do DJ Paulistano abrange diversos gêneros da Bass Music – com mais ênfase em ritmos graves, como o Dubstep, Drum and Bass, Footwork e UK Garage – e também combina elementos da cultura da internet e cultura pop japonesa – a exemplo do remix de Shiki no Uta – trilha sonora produzida pelo produtor musical japonês, Nujabes, para o anime Samurai Champloo (2004). 

DJ Tobeats

Foto: Davi Lange (@davilangee

Nascido e criado na capital do estado, Pedro Tobias dos Santos, o DJ Tobeats, é radialista da Moov FM e produtor musical. Foi na infância que Tobeats descobriu a relação íntima com o rap/hip-hop, que, na opinião do DJ tem tudo a ver com a música eletrônica. “Na igreja que eu ia com os meus pais, eu tinha um grupo de rap com um amigo meu que, depois de velho, criou um grupo de rap sério mesmo, né? Quando a gente era criança, a gente já escreveu alguns raps e tal. E, a partir disso, comecei a fazer beats já adulto”.  

Anos mais tarde, a partir do convite de amigos, Tobias tocou em um festival de música eletrônica em Abadia de Goiás (GO). “Foram duas horas só de beat autoral e esses meus beats eram bem viajados, um ‘trem’ meio experimental, saca? Dali em diante, eu comecei a ter uma pesquisa mais pro lado do que eu já fazia”, explica. 

O DJ goianiense é influenciado, principalmente, pelo rap/hip-hop e a colagem de samples  de músicas, que transitam desde o Jazz, Soul e R&B até ritmos mais característicos da música popular brasileira – em um casamento com a Intelligent Dance Music (IDM), que foca na experimentação, o Miami Bass, Drum and Bass, UK Garage e um pouco da música eletrônica nacional, o Funk. 

“Por eu ter essa base na cultura de colagem, isso amplia a exploração de vários estilos: eu gosto de música étnica, ritmos tradicionais, populares – seja daqui de Goiás, seja do Norte, Nordeste, ou de outros países também”, comenta. 

Desafios 

Para Tobeats, o público goianiense ainda não apresenta grande demanda pela música eletrônica, “pelo menos nesse nicho menos comercial”. Ele acrescenta: “é uma necessidade que a gente mesmo cria basicamente. A Quarto surgiu porque a gente queria tocar o som que a gente gosta”.

Nesse mesmo sentido, o DJ Poisnão chama atenção para o aspecto mais “convencional” dos sons na noite goianiense, mas ressalta que, apesar de uma cena underground local menos proeminente – em comparação com os padrões de outras grandes capitais brasileiras, a exemplo de São Paulo –, ainda existe uma abertura para crescimento em meio a uma cidade menos “saturada” como Goiânia.   

Entre outros obstáculos, Luciano e Tobias concordam ao enfatizar a ausência de espaços para a recepção das festas eletrônicas underground e do público clubber, além da falta de equipamentos e infraestrutura próprios – o que limita ainda mais o desenvolvimento da cena. “São poucas as opções que a gente tem, tá ligado? E aí, entra a questão de a gente não ter o nosso próprio equipamento, o nosso próprio bar. Talvez, essas sejam umas das nossas maiores dores”, desabafa Tobias. 

No entanto, mesmo diante desses obstáculos, Tobias faz questão de relembrar as particularidades do cenário goiano e frustra as expectativas daqueles e daquelas que projetam, na capital goiana, perspectivas de um crescimento aos moldes das regiões Sul e Sudeste do país.

Por outro lado, Goiânia tem talentos incríveis. Na verdade, isso não é uma coisa do futuro, não; é um potencial que já existe – sempre existiu, saca? No rap/hip-hop, no rock, na eletrônica”, sugere, com otimismo, o DJ goiano. 

E a isso, se soma uma comunidade forte na cena underground que, desde o começo, “acolheu a proposta do rolê” e “sempre pergunta quando é que vai ter outra edição da Quarto”, na avaliação de Luciano. “É muito massa isso!”. 

“A gente faz um som com a nossa cara. O próprio Eletrofunk é o nosso jeito de fazer música eletrônica, assim como o Tecnobrega – lá no Pará. Isso é um reflexo da nossa realidade, de viver aqui, mano, nessa grande roça. E eu tenho um grande orgulho de viver nessa grande roça aqui”, finaliza Tobias, ciente das dores e das belezas de fazer parte da cena clubber no centro do Brasil.   

No próximo sábado (25), o Vernissage Club, localizado no Setor Sul, recebe uma nova edição da Festa Quarto, realizada em parceria com o coletivo de música eletrônica CLUBBEATS. Também participam do evento, diretamente de Brasília (DF), as DJs Leriss e Giograng. Além disso, é possível solicitar, gratuitamente, ingressos pela lista Trans e Não-binárie, disponíveis via solicitação na DM do perfil oficial da festa Quarto, no Instagram.  

062bpm é um projeto que integra o veículo de jornalismo cultural independente, Portal Beco, e busca cobrir a cena da música eletrônica goianiense, desde DJs, produtores e produtoras, eventos e novidades, do mainstream ao underground, de modo a fortalecer essas iniciativas inseridas no contexto cultural da região, estado e município.

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