O grafiteiro busca o sincretismo entre as culturas regional e urbana em suas criações
Por Everton Antunes

Foto: Artista visual e grafiteiro goianiense, Paulo Paiva. Créditos: Heberty Matheus
Natural de Goiânia (GO), Paulo Paiva – ou, como é conhecido pelas ruas da capital, ‘Papão’ – é um artista visual, grafiteiro e tatuador que retrata a singularidade do estado e município por meio da fusão de elementos imagéticos regionais e o uso da metalinguagem do grafite nas telas e muros da cidade. Recentemente, entre os dias 08 de agosto e 01 de setembro, Paiva exibiu a exposição “Interior das Ruas”, realizada na Vila Cultural Cora Coralina, no Setor Central – perante um público estimado em mais de 800 pessoas.
O grafiteiro também passou parte da infância e adolescência na Filadélfia – cidade norte-americana do estado da Pensilvânia – e, de lá, absorveu a influência e estética da arte urbana estadunidense. No entanto, ele ressalta com orgulho durante a entrevista: “tenho muito orgulho de ser daqui e não gostaria de ser de nenhum outro lugar!”.
Permeado pelo ‘caipirês’ na mesma medida que cerca-se de prédios e da euforia da cidade grande –, o indivíduo goianiense é, nas palavras de Paiva, “dual”: conservador, porém atento ao potencial transgressor da arte; fiel ouvinte do sertanejo, mas engajado nos mais diversos gêneros musicais. Embora distante de suas raízes por um breve período, o artista fala, em entrevista ao Portal Beco, sobre o seu interesse na valorização do grafite e tradição locais, além do preconceito que ainda persiste com esta arte – apesar do cenário de “mais abertura”.
Portal Beco: Poderia começar se apresentando e falando sobre o seu início nas artes visuais?
Paulo Paiva: Meu nome é Paulo Paiva, eu sou um artista visual goianiense e, além de artista visual, sou tatuador e grafiteiro – acho que todas essas coisas se encaixam dentro das artes visuais, mas eu trabalho com várias mídias. Desde cedo, eu tive uma aptidão para o desenho: uma folha em branco, para mim, sempre era uma oportunidade de desenhar uma coisa ou outra pela observação – ou do próprio imaginário – e isso, depois de mais velho, me levou a procurar cursos que tinham a ver com a minha habilidade, então eu cheguei a estudar Design e, depois, acabei ingressando na faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Foram anos de formação que me moldaram como artista, mas acabei não me formando por vários motivos: problemas de família, problemas financeiros também. Trabalhei algum tempo com isso e, a partir dessa afinidade – porque a faculdade de belas artes abre a nossa mente para muitas possibilidades –, acabei me ingressando no mundo do grafite, da pichação, conhecendo a tatuagem e, através dela, eu tive uma escola porque eu eu gosto muito de aprender, de vir debaixo, de ter a noção de que eu não sei nada, que existe um processo até chegar aonde a gente quer e, com a tatuagem, não foi diferente: eu procurei ser aprendiz de tatuador – hoje, é um caminho que muitos tatuadores não procuram – e nessa busca por aprendizagem eu conheci grafiteiros e pichadores que [também] eram tatuadores. Eles abriram a minha cabeça sobre como o movimento andava de fato, como as coisas se organizam dentro desse universo da arte urbana e foi aí que eu abri minha mente para o que eu queria fazer. Foi através da tatuagem que eu me encaixei dentro do cenário de arte urbana, criei os meus ‘vulgos’ que eu uso até hoje. É um trabalho de formiga: você vai fazendo aos poucos até se entender dentro do cenário da arte urbana em Goiânia.

Portal Beco: Quais são as referências e inspirações de artistas visuais que influenciam o seu trabalho?
Paulo Paiva: Em Goiânia, a gente exporta muitos artistas e tem um viés artístico muito forte, então [eu fui influenciado] pela observação dos grafiteiros com quem eu aprendi: o Adrien Dorme, Rafael Play e alguns outros mais conceituados no cenário nacional, como o Wes Gama, o Deneri e o próprio Selon. Eu gosto de ter as minhas referências dentro do espaço onde eu habito porque essas pessoas estão vivendo a cultura que eu vivo. Observar como esses artistas, que têm um repertório tão refinado, conseguem transformar a própria vivência em arte que pode ser exportada e compreendida por pessoas de outros lugares é o que me instigou. Eu pensei, “cara, esses manos aqui de Goiânia conseguem pegar nossa cultura, sintetizar ela, colocar uma poética por trás e levar para outros lugares”. Se esses manos conseguem, eu acho que também consigo chegar lá algum dia – estudando, procurando o caminho que essas pessoas seguiram. O Selon e o Rafael Play são os artistas em quem mais me inspiro.
Portal Beco: Atualmente, como você avalia o cenário das artes visuais em Goiânia?
Paulo Paiva: Esses últimos anos foram mais libertadores – no sentido da aceitação com o grafite e o próprio muralismo. Nos últimos 15, 20 anos, [a população] tem dado mais abertura, mas existe, na minha concepção e de muitos outros artistas de rua, uma grande diferença entre o grafite e o muralismo: o grafite é uma arte agressora mesmo, as pessoas não entendem isso e colocam tudo no mesmo saco; mas, a partir do momento que você paga um grafiteiro para fazer uma arte, não é grafite mais. O grafite é a arte de ocupação, de vandalismo, de você ocupar e reivindicar os espaços dentro da cidade. Então o preconceito com o grafite – e o que ele realmente é – ainda é muito forte. Então, foi algo que que eu, pessoalmente, quis retratar dentro da minha arte. A pichação é grafite. A gente, aqui no Brasil, tem esse nome, mas a pichação é o próprio grafite, não existe uma diferença, são só maneiras diferentes de expressão artística – uma é mais voltada para tipografia, a outra, para o personagem e o lúdico –, mas as pessoas em Goiânia e em Goiás ainda têm um certo preconceito quando a gente chega para fazer [grafite] de uma maneira que não seja autorizada, mais crua mesmo, mas, em contrapartida, as pessoas que fazem isso há muitos anos vêm desmistificando isso para, hoje em dia, a gente também conseguir ganhar a vida com isso. São dois lados da mesma moeda: existe o preconceito de um estado mais conservador, onde as pessoas têm esse pé atrás com o que a arte proporciona – que é esse vanguardismo de criticar e colocar ideias na mesa – e um outro lado. A gente, como artista urbano, também tem que saber onde se colocar e como se portar, dependendo de onde a gente estiver em Goiânia e em Goiás.
Portal Beco: E quanto aos incentivos à arte e à cultura no estado e município?
Paulo Paiva: Eu acho que melhorou muito – principalmente, por parte do estado. Eu sou um grande crítico das gestões públicas, tanto estaduais quanto municipais, acho que, como artista, eu tenho a obrigação de cobrar, colocar o dedo na cara, apontar algumas coisas por meio da minha arte, mas eu acho que a Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás) está fazendo um excelente trabalho em relação à cultura: abre muito espaço para os grafiteiros e para a arte urbana – tanto é que eu fiz trabalhos na Vila Cultural e no Martim Cererê e foi boa a aceitação. Em contrapartida, a gente tem a Secretaria Municipal de Cultura (Secult Goiânia) na capital, e parece que as coisas pararam no tempo. A gente tem verba, tem as coisas, mas a gestão é muito precária e as maneiras de trabalhar não condizem com o cenário e a quantidade de artistas*. Tudo em Goiás parece ter essa dualidade: existe um lado muito, muito bom, e existe um lado que é muito ruim. Nesse caso do incentivo [à cultura], a Secult Goiás está de parabéns, e a Secult Goiânia tem que comer muita farinha para atender às necessidades da cultura na cidade.

Portal Beco: Como você desenvolveu a combinação entre o urbano e o campo nas suas obras?
Paulo Paiva: Eu consegui partir dessa narrativa através das observações de mim mesmo, de uma certa consciência de quem eu sou: artista visual, pichador, grafiteiro e goiano também. Isso tudo faz parte do meu universo, da minha individualidade e foi uma maneira de eu mostrar que eu existo, que as pessoas com quem eu convivo – os meus colegas de trabalho e os meus colegas grafiteiros – também existem. A gente risca uma parede, leva a nossa arte, leva essa contestação para o cenário urbano, mas, ao mesmo tempo, a gente come pamonha. Nesse momento, eu ‘tô aqui no meio do mato, né? Para mim, isso faz parte do meu universo, não tinha como esconder isso. E aí, volta aquele preconceito de que a nossa cultura é só sertaneja: é uma grande fatia de quem nós somos, mas não é tudo. Eu posso usar um chapéu de palha, mas, ao mesmo tempo, eu posso tirar uma lata aqui da minha mochila e pichar, isso não descarta o meu ‘ser goiano’.
Portal Beco: O que você achou do feedback do público para a sua exposição, “Interior das Ruas”, na Vila Cultural?
Paulo Paiva: Eu fiquei até sem palavras, porque a gente, enquanto artista, não tem essa noção de como o trabalho vai ser recepcionado. Esse mesmo estudo já havia ido ao FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental), neste ano, e ao Salão Nacional de Arte de Jataí. Foi um trabalho que também passou pela Lei Paulo Gustavo, no ano passado. Então, quando eu expus o trabalho, fiquei muito feliz, as pessoas se conectaram e entenderam bem de onde partiu a inspiração, então isso me deixa muito feliz. Tivemos quase 800 visitas, tirando a abertura – que também teve muita gente –, para mim foi um sucesso!
Portal Beco: Do lado de fora dos museus, quais são suas intervenções com o grafite pela cidade?
Paulo Paiva: Quando eu estou pelas ruas de Goiânia, eu prefiro fazer o meu trabalho de grafiteiro. O Paulo – artista plástico, artista visual – anda em paralelo com o ‘Paulo artista urbano e grafiteiro’. Eu prezo pela identidade do grafite, de como ele é feito, de onde ele parte, faço muitas intervenções de letra – gosto muito de bomb dentro do grafite –, as pichações, hoje em dia, [faço] menos, porque é um trabalho muito importante, mas é muito transgressor também. [A pichação] demanda muita energia, uma certa despretensão – você tem que dar uma desprendida de tudo – e acabou que eu quis seguir mais com a linha do [grafite] bomb, que é mais colorida, um pouco mais lúdica. Eu acho que o que dá sustentação para a minha arte é estar executando essas coisas na rua, não o contrário. O grafiteiro tem que ocupar a cidade, é o meio que eu uso, então você vai ver, por exemplo, meu vulgo – ‘Papão’ – pela cidade inteira, porque é o que sustenta o meu trabalho.
Portal Beco: Poderia descrever as técnicas e materiais que você utiliza na criação do seu trabalho?
Paulo Paiva: Dentro das artes visuais, eu tenho algumas experimentações: gosto muito de aquarela, nanquim e tinta acrílica. São técnicas que não são segredo para ninguém, mas foram os meios que eu consegui utilizar para replicar [as obras] em qualquer tamanho – uma coisa muito importante para mim é fazer um trabalho que seja 10x10cm e conseguir fazer um muro de 10x10m. Se eu conseguir essa mesma poética dentro desse espectro, minha arte, consequentemente, vai conseguir alcançar mais pessoas: o que me deixou muito flexível com a técnica que eu uso foi a questão da acessibilidade de preços, eu queria ter obras de arte que uma pessoa que não tem condição de investir em arte pudesse comprar e, também, certas dimensões que seriam entendidas como investimento. Eu escolhi essas técnicas para que eu possa atender um pouco dos dois mundos, sem excluir ninguém da minha arte.

Portal Beco: Quais são os planos a seguir em Goiânia? Você pretende sair do estado?
Paulo Paiva: Eu ainda tenho alguns projetos em andamento com a [exposição] Interior das Ruas pelo projeto da Lei Paulo Gustavo: vou fazer três murais em algumas periferias de Goiânia neste próximo mês de outubro. Eu não acho que eu ocupei Goiânia como gostaria de ter ocupado ainda, então às vezes eu nem penso muito em ir para fora, em outros eixos, até porque eu preciso que o povo goiano conheça a minha arte de fato. O plano é continuar por aqui e investir no trabalho e pesquisa para fortalecer nossa cultura. No futuro, caso eu precise ir para fora, já tenho esse trabalho bem solidificado, para que um paulista, ou um carioca, ou um americano, um europeu, que seja, saiba muito bem de onde veio.
*Procurada a respeito da gestão e os incentivos à cultura, a Secult Goiânia não respondeu os questionamentos apresentados pelo artista até a publicação desta entrevista.

Finalmente conteúdo de qualidade da cena cultural goianiense! Matéria de qualidade
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Excelente entrevista e escrita, parabéns ao artista e ao jornalista pelos trabalhos maravilhosos!
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