Palavras que ultrapassam os limites dos muros: a poesia e a arte de Rafael Vaz

Artista. Poeta. Altamirense. Esses são traços de um artista goiano, abandonado, mas nunca só.

Por Teresa Prado

4–6 minutos

Foto: Teresa Prado

Foi em Goiânia que o jovem paraense se descobriu na arte, Rafael Vaz chegou na terra do pequi em 2010. Em um caderno, ele começou a registrar suas histórias na capital: “eu fui falar sobre a saudade que eu tava de Altamira e aquilo virou um poema”. Neste processo, se descobriu poeta e Goiânia foi o gatilho para liberar o artista altamirense, que percorreu um longo processo até chegar no curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2017.

Em 2024, apresentou sua primeira exposição individual,  “Merindilogun”, mesmo nome da obra principal, que conta sobre o jogo de búzios em uma pintura feita com grafite. A exposição mostrou obras voltadas para a ancestralidade e religiosidade do artista, com retratos de orixás, estudos sobre o búzio e peças em cerâmica. Durante um mês, mais de mil pessoas visitaram o espaço, mas uma merece um destaque especial: a Rainha Diambi Kabatusuila, do povo Bena Tshiyamba da República Democrática do Congo, que, durante visita ao Brasil, passou uma temporada em Goiânia e foi convidada para a exposição .

Abertura da exposição “Merindilogun”

Foto: Instagram Vila Cultural Cora Coralina

“Foi uma parada coletiva, porque era a minha primeira exposição. Foi uma lição de que posso fazer sozinho, mas, acima de tudo, as pessoas estão dispostas a me ajudar.”

Abertura da exposição Merindilogun”

/ Foto: Instagram Vila Cultural Cora Coralina

“E a prova disso foi que passou de mil assinaturas.  O que mais me encantou é que tem de vários lugares do Brasil, sem contar a Rainha do Congo!”

Rainha Diambi Kabatusuila visitando a exposição de Rafael Vaz / Foto: Lukas Fidelis

Rainha Diambi Kabatusuila visitando a exposição de Rafael Vaz
Foto: Lukas Fidelis

Os caminhos do Maior Abandonado na Terra do Pequi

A primeira vez que o altamirense veio para Goiânia ele tinha apenas oito anos de idade. Rafael veio com a família visitar um tio que morava em Senador Canedo e aproveitou para conhecer a terra do pequi.

Rafael com oito anos no Shopping Flamboyant./ Arquivo Pessoal

Rafael cultiva a paixão pela palavra, desde quando se mudou para Goiânia, mas foi depois de cinco anos que o poeta sentiu a necessidade de viver da arte após um amigo do artista convidá-lo para participar de um sarau.

“Aquilo começou a me alimentar e foi a hora que eu falei, ‘não rola mais de trabalhar normal’. Eu tenho que me sustentar de alguma forma, mas tem que ser através disso aqui [poesia]”

Registro do quarto de Rafael Vaz

“As pessoas já estavam me chamando de ‘o poeta’ e eu falei, ‘pô, sou mesmo, essa é a minha profissão!’”

Registro do estudo de Rafael Vaz

Mas o processo de morar em outra cidade não foi simples. Em Goiânia, o artista morou no Novo Mundo, no Centro e nas ruas. Em 2016, Rafael viajou para o Rio de Janeiro e quando retornou para Goiânia decidiu voltar ao Pará.

“Decidi que não ia ficar mais aqui. Seis anos de Goiânia, fiz altos corre e não deu certo. Vou voltar para Altamira pra recomeçar. Se lá é meu ponto inicial, eu vou voltar pra lá.”

Com duas semanas em Altamira, o poeta recebeu uma mensagem dizendo que ele tinha passado no curso de Artes Visuais na UFG. Quando contou para sua mãe, ela foi a principal incentivadora para que Rafael retornasse à Goiânia.

“Ela me disse que eu não tinha mais cara de Altamira, que a cidade não me cabia mais.”

3×4 de Maria Simão, mãe de Rafael Vaz

Pela terceira vez em Goiânia, a trajetória com a cidade foi diferente. Em 2017, Rafael começou o curso de Licenciatura em Artes Visuais na UFG, após alguns semestres mudou para o bacharelado. Durante o curso começou a fazer parte do Sertão Negro, um ateliê que também é Escola de Artes em Goiânia.

Lambe produzido por Rafael Vaz

“O Sertão levou a gente pra um patamar que é internacional. Às vezes quando eu penso em desistir, o peso é maior. Antes desistir era fácil porque eu conhecia poucas pessoas importantes, hoje eu conheço muita gente, se eu pensar em desistir, a responsabilidade é muito grande. Sem contar com essa política, eu tenho braços, eu tenho ideias, eu tenho uma religião para defender de alguma forma. Eu me vejo na rua de novo? Às vezes sim, mas jamais sem estar fazendo [arte], isso que salvou minha vida e é o que me mantém.”

Resgate

Apesar de se intitular artista goiano, sua relação com a arte começou no Pará. “Quando a gente for olhar para Altamira, meu irmão trabalhava com pintura de muro. Eu já fazia isso, eu já riscava as paredes da minha casa quando era menor, pichava”. Durante a entrevista, mostrando as suas obras, Rafael relata que uma das principais caligrafias utilizadas nos seus trabalhos ele aprendeu quando criança, com um vizinho.

3×4 de Rafael Vaz

Em sua arte, Rafael Vaz fala sobre a rua mas também sobre si e os que estão com ele. Seus processos são diversos, mas quase sempre envolvem a palavra. A maioria das frases e palavras que se observa nos trabalhos do artista visual são recortes das poesias dele entre os anos de 2010 e 2016. Atualmente, o trabalho de Rafael Vaz é voltado para ressuscitar esse poeta, fazendo um resgate da sua poesia e do seu dia a dia. 

Desenhos de Rafael Vaz

Sua última produção, agora em processo de finalização, é o reflexo deste estudo do artista. Ao todo, são cinco retratos, todos de figuras marcantes para Rafael: seus pais, Maria Simão e Sebastião Vaz, Zé Pilintra, entidade de religiões afro-brasileiras, Bispo do Rosário, artista plástico brasileiro, e Dalton Paula, fundador do Sertão Negro. Todos eles carregam as palavras do poeta e os desenhos refletem a relação do artista com aqueles que fazem parte do seu resgate.

Registro de um quadro da série em produção de Rafael Vaz

Nota: Todas as palavras e frases em itálico nesta reportagem são de Rafael Vaz, seja de poesias do artista ou de respostas durante a entrevista.

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